quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Altamira: primeiras impressões

Contra a força destruidora do capital somente a força soberana do povo organizado 
                                   Antônio Claret Fernandes*
O mineiro carrega consigo a nostalgia das montanhas, mesclada de saudade, por antecipação, um pouco de desconfiança e certa ironia. É Assim, pois, que chego a Altamira, essa cidade banhada pelo imponente Xingu, ameaçado pela  prepotência do Capital.
Outrora aprendi que homem não chora.  Não é que chorei nesses poucos dias, mas a saudade é grande! Nomes de pessoas, antes comuns e corriqueiros, agora me invadem a mente e se apresentam como memoráveis. Muito particularmente, o soluço e os olhos lacrimejados de minha mãe, ela que é tão forte, não me sai da memória. Sua voz, cheia de fé, ainda soa em meus ouvidos: ‘Nossa Senhora acompanhe você!’.
Embora não seja muito dado à inovação tecnológica, procurei sondar pessoas do ramo e, com toda a falta de jeito - pela índole matuta e camponesa -, percorri  algumas lojas de celulares  em Altamira e, por fim, cadastrei-me  num  plano da Vivo pelo qual se pode falar um minuto para qualquer parte do Brasil por cinco centavos.
Passei o número imediatamente para algumas pessoas amigas e, via e-mail, mandei  um recado: ‘se precisar ligar, esse é o telefone!’.  E coloquei o número! Confesso que poucos minutos depois, e por diversas vezes seguidas, sempre que me lembrava do celular, abandonado sobre a cama, ia ao quarto e olhava se não havia alguma chamada. Na verdade, estava louco que alguém ligasse!
 Cansado de aguardar, coloquei o celular no bolso e, entretido com outras coisas, acabei até me esquecendo dele. E ele tocou! Sua vibração no bolso me deu um susto e, após um riso sem graça diante de um colega que percebera a reação, invadiu-me uma alegria imensa, pois, enfim, pensei, alguém está ligando. Olhei o número: desconhecido.  À  alegria seguiu-se um desapontamento diante da pergunta, do outro lado: ‘é a Celina’? E depois: ‘desculpe, foi um engano!’.
Tocado tão fortemente por aquele sentimento, me dei conta de que, aos 47 anos, nunca ficara mais que quatro meses seguidos fora de casa. Logo eu, que me achava bastante desprendido, quase sem parada certa, agora passando por essa ‘bobagem’; logo eu que viajara por diversos estados do Brasil, e por alguns outros países, agora me achava ali, doído de saudade. É que entre uma andada e outra se interpunha uma passada em casa, breve que fosse. O que agora eu sentia era, na verdade, uma espécie de saudade por antecipação: ainda que não se tivesse completado uma semana de nossa estada em Altamira, a previsão era para três anos, e isso me tirava do sério, e desconsertava.
Continuo convicto de que ‘nossa pátria é o mundo’, mas todo mundo precisa de um ninho; não para apegar-se, mas para ser-lhe referência, feito terra firme sobre os pés. E o novo ‘ninho’ está, ainda, em construção. Será no seio do povo, nosso aconchego e proteção.
Sentir a distância das pessoas queridas me despertou, de repente, o sentido da solidariedade, e resolvi passar uma mensagem para Dayana, bem longe e sem ir à sua casa há mais de dois anos. Ela faz medicina em Cuba pelo MAB num curso com duração de sete anos. Mas não deu certo! O endereço dela no computador devia ser antigo e a mensagem voltou.
Entre os nomes grudados na memória, alguns, às vésperas de nossa partida de MG, expressavam uma especial preocupação com a nossa segurança. E diziam: ‘cuidado com os índios’! Eu ria sem dizer nada. E agora rio sozinho, cada vez mais convicto de que, se há que se ter cuidado, é com os inimigos dos índios: barrageiros, madeireiros e muitas autoridades, prostrados de joelho frente à força do Capital. Esses são perigosos!
Altamira é uma cidade de contradições! O Xingu, banhando-a, oferece-lhe, gratuitamente, uma vista singular e, aos moradores e visitantes, uma orla aconchegante. Ali é o local do encontro, da convivência e descanso, em especial nos finais de tarde e à noite.  Os namorados se encontram, encostados nos muros. As pessoas caminham, correm, e alguns fazem exercícios, espichando a perna sobre um banco e apertando o joelho. A brisa do rio contrasta com o mormaço e o sol escaldante.
Tirado esse cartão postal, que é bem cuidado, Altamira, semelhante às outras cidades da região, carece de políticas públicas elementares.  O esgoto corre a céu aberto nos cantos das ruas. Parece não haver serviço de limpeza urbana. Em diferentes pontos, urubus disputam as sacolas de lixo, buscando alimento.
A periferia é pior! As áreas alagadiças, particularmente, onde residem muitas centenas de famílias, a situação é deprimente. Os esgotos, o lixo e, no período das cheias, a água parada sob as palafitas propiciam a incidência de diferentes vetores de inúmeras doenças graves. Essa população mais simples, por vezes em miséria, é a mais sofredora. Mas não perde seu encanto pela vida, manifestado no espírito da boa acolhida.
O mormaço de Altamira, como se fosse uma estufa, impõe uma especial característica às lojas: boa parte delas, particularmente as mais equipadas, dispõe de ar condicionado, por vezes de porta fechada com a inscrição: ‘empurre’! Andando pela rua, sob um sol de rachar, entrei diversas vezes numa ou noutra loja; não para comprar, que não sou desse feitio, mas para me refrescar um pouco naquele ambiente.
As contradições de Altamira tendem a se agravar, enormemente, se Belo Monte for construída.  Antes mesmo de sua implantação, os sinais dos impactos negativos são visíveis. São vários os boatos que correm nas ruas, mas nem sempre se confirmam. No dia 27/09, por exemplo, dizem que 1000 homens chegaram à cidade, todos atraídos pela promessa de emprego. Correu em boca miúda que um sujeito teria andado a região avaliando os melhores pontos para se implantarem os bordéis.
Os sinais se fazem visíveis, também, na orla. Os bares, antes rústicos, agora vão ganhando uma nova performance, sem perder seu ar de simplicidade, ao menos por enquanto. Cadeiras e mesas se estendem às dezenas em áreas espaçosas. Os carros estacionados com placas de cidades variadas, o perfil das pessoas sentadas às mesas, e o seu sotaque, desvelam esse novo momento. Altamira não é mais a mesma! A cidade vem sendo invadida por pessoas de diversas partes do Brasil, cada qual com seus interesses e motivações. Eu e um colega de Minas Gerais nos incluímos entre esses.
O comércio, no geral, está movimentado! Um exemplo típico são as lojas de celulares, ramo dominado pelas empresas TIM e VIVO. Num espaço relativamente pequeno, da VIVO, contei dez funcionários, todos ocupados no atendimento aos muitos clientes; a maioria, como eu, buscava ali uma forma eficaz e econômica de comunicação com seus estados de origem. Uma equação difícil, senão impossível! Os planos atraentes, que os funcionários trazem na ponta da língua, nem sempre funcionam.
Do ponto de vista econômico, Altamira começa a experimentar um momento de economia aquecida, para alegria dos empresários em geral. Do ponto de vista sociológico, Altamira está, literalmente, inchando. Em pouco tempo o número de habitantes quase dobrou, saltando para 105 mil habitantes.
Em recente Audiência Pública na cidade, debateram-se os impactos e ameaças do projeto de barragem de Belo Monte. Empresários, com sua visão capitalista, políticos, e parte do povo, que hoje vive na miséria, vêem em Belo Monte um sinal de redenção. O Governo Federal, seduzido e influenciado pelo deus-capital, se aproveita dessa situação, e faz promessas de políticas públicas em troca de Belo Monte. Muitos, porém, questionam e resistem. Um cidadão falou do pós-barragem, como uma ressaca depois da tsunami no mar bravio. O representante do consórcio respondeu, na maior cara de pau, que o momento não seria para isso: ‘ocupemo-nos agora dos empregos gerados, não com o que será daqui a 10 anos’.
 Ele procurou dissimular-se, pois sabe muito bem que o efeito ressaca, mais que o aquecimento repentino, é desastroso. Já existem, hoje, várias cidades fantasmas no entorno de barragens as quais, depois de um período ‘aquecido’, caem no completo esquecimento. O que ele fez pode chamar-se de pragmatismo de má fé.
É comum governos e empresas se servirem desse artifício para desviar a atenção do povo. Lula fizera algo semelhante em sua visita a Altamira no 2º semestre de 2010. Acossado por pessoas contrárias a Belo Monte, disse que, ao invés de se posicionarem contra, deveriam pensar formas de uso dos 4 bilhões de reais reservados para a região. Não se sabe, até hoje, se a promessa é real.
Há gente se mexendo feito pigmeu contra gigante, ciente de que todo gigante, por grande que seja, tem os pés de barro. Todo império tem sua fragilidade! Há uma luta histórica da Prelazia do Xingu na defesa dos ribeirinhos e dos povos da Amazônia. Existe o Xingu Vivo, que vem denunciando amiúde esse Belo Monstro e fazendo uma grande articulação, dentro e fora do Brasil. Existem, ainda, movimentos populares incipientes, entre eles o MTD – Movimento dos Trabalhadores Desempregados e o MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens. Há reações espontâneas em áreas ameaçadas pelo projeto Belo Monte, na região urbana de Altamira, com ocupações, duramente reprimidas pela força bruta.
A intervenção do Ministério Público Federal anunciada no dia 28/09 e sua proibição de intervenção das obras de Belo Monte no leito do rio Xingu soou  em nosso meio como piada de mau gosto. É que, no momento, não existe nem está planejada nenhuma intervenção direta no rio, pois a prioridade da empresa até dezembro é a infra-estrutura de acesso à região da barragem. O trecho da transamazônica perto da volta do Xingu  está sendo asfaltado e os travessões  melhorados com essa finalidade, e essas obras continuam a pleno vapor.
Quanto aos peixes ornamentais, principal objeto da suposta paralisação das obras, faz-se necessário um esclarecimento. Não se trata de alguns peixinhos de aquário; trata-se de uma variedade imensa de peixes ornamentais endêmica da Volta Grande do Xingu, a qual se estende por um trecho de mais de 100 km , que será extinta, caso a barragem seja construída. Há ainda outros peixes, animais e plantas que, também endêmicos, teriam o mesmo fim.
O impacto sobre o rio e seu entorno significa o impacto sobre o ser humano. O exemplo são, de novo, os peixes ornamentais. Os pescadores conseguiram junto ao IBAMA uma licença para sua exploração sustentável, inclusive para exportação. Extingui-los é, portanto, tirar o ganha-pão desses trabalhadores. É muito contraditório que o IBAMA, tendo concedido licença aos pescadores, agora conceda uma licença a favor de Belo Monte, pois as duas atividades são conflitantes entre si.
Essa ‘aparente’ contradição do IBAMA tem uma explicação. Belo Monte não é uma decisão dos órgãos ambientais nem do governo, mas do Capital, ao qual o governo é subserviente. Essa clareza é importante! Os que se arvoram a levar adiante esse crime anunciado o fazem de forma consciente, para acumulação de capital. Buscar convencê-los do contrário é o mesmo que dizer ao gambá para não mexer na ninhada de ovos, sem expulsá-lo com uma boa sova. Contra a força destruidora do capital somente a força soberana do povo organizado.
Esse é o principal senão o único desafio de todas as entidades e pessoas que desejam, honestamente, defender os bens naturais e os povos da Amazônia: a organização! O acúmulo histórico de alguns segmentos e entidades e sua unidade, o encantamento do povo e a articulação com os parceiros, dentro e fora do Brasil, são elementos decisivos nessa dura, mas importante empreitada.
Enquanto esquenta o debate da barragem de Belo Monte no Brasil e no mundo, com visita de representação indígena a países da Europa, pega fogo, literalmente, numa região rural de Altamira. Seiscentas cabeças de gado foram retiradas em tempo, mas boa parte da área com mais de 15 mil pés de laranja foi destruída. O fogo lambeu 400 ha de terra!
Logo no início do incêndio, ainda pela manhã, a Prefeitura e o Corpo de Bombeiros foram acionados, porém só chegaram depois de quatro horas. E não conseguiram acessar o local pelas más condições das estradas.
Os agricultores, que vinham buscando conter o fogo com seus próprios meios, mas sem sucesso, entraram em desespero e xingaram muito; a polícia foi acionada,  um trabalhador quase foi preso. E o fogo, que se iniciara de manhã, varou a tarde e entrou pela noite, apagando depois por sua conta e risco.
                                                            *Padre e militante do MAB em missão na Amazônia.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Assembleia Regional de Pastoral

Região Mariana Centro realiza Assembleia Pastoral
Com o tema “Igreja viva, chamada a assumir, no discipulado a comunhão e a missão”, a Região Mariana Centro realizou no último sábado, 1º de outubro, na cidade de Piranga, sua XVII Assembleia de Pastoral. Cerca de 90 pessoas participaram do evento que teve início por volta das 9 horas com a acolhida dos participantes. Em seguida, houve um momento de oração inicial onde um representante de cada paróquia teve a oportunidade de partilhar, em breves palavras, a caminhada pastoral de sua comunidade paroquial.
A Assembleia foi desdobrada em três dimensões: Ver, Julgar e Agir. No que se refere à dimensão do Ver, o diácono Werques fez a apresentação da síntese dos relatórios preenchidos pelas Equipes visitadoras do PAE a fim de que todos tomassem conhecimento daquilo que é a realidade pastoral de cada paróquia. Logo após, o vigário episcopal, padre José Afonso, responsável pela exposição da dimensão Julgar, apontou caminhos para a aplicação do PAE nos trabalhos pastorais das comunidades. A exposição do padre José Afonso foi dividia em três partes: Em primeiro lugar, a visão do PAE como anúncio aos batizados: àqueles que participam da vida da comunidade, àqueles que estão afastados da Igreja e àqueles que não possuem a fé cristã ou que vivem além de nossas fronteiras, tanto geográficas quanto culturais. Em segundo lugar, a visão do PAE em relação à descentralização pastoral, ou seja, uma maior valorização dos diversos carismas, serviços e ministérios.
Por fim, em terceiro lugar, a coordenação pastoral, à luz do PAE, que deve ser vista não pela ótica do poder, mas sim do serviço a Deus e aos irmãos. No que se refere à dimensão do Agir, foi realizado um trabalho em pequenos grupos em que os participantes tiveram a oportunidade de refletir sobre alguns temas importantes ligados à realidade da Região Pastoral. Em seguida, conduzida pelo padre Luiz da Paixão, foi realizada um plenária apresentando o resultado da reflexão dos pequenos grupos. A partir daí, ficou definido que a Região Mariana Centro vai continuar priorizando, no campo da evangelização, o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo mediante uma espiritualidade encarnada, ou seja, anunciar o Reino de Deus sem fugir da realidade do nosso povo. Além desta prioridade os participantes assumiram como compromisso: dar atenção especial à FAMÍLIA e à JUVENTUDE e incentivar os GRUPOS DE REFLEXÃO. O encontro terminou por volta das 16 horas com um rito de envio missionário. 
Para esta postagem colaborou o Diác. Werques

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Padre Rubens... Passou fazendo o bem!


Deixa-nos perplexos os inúmeros sinais de violência que perpassam o imaginário social. Incontáveis irmãos nossos são vítimas desta estrutura perversa vigente. Nestes últimos dias recebemos a triste notícia do assassinato do padre Rubens, grande amigo, sacerdote fiel. Uma frase caracteriza a sua existência e o seu ministério: "passou fazendo o bem!"


Tive a alegria de conviver com este grande irmão no sacerdócio. Estudamos no seminário São José, em Mariana. Pude também acompanhar o seu estágio pastoral, por um período de dois anos, em Cachoeira do Campo. Sua humildade e alegria a todos envolvia. Sabia integrar muito bem os momentos de diversão com os trabalhos pastorais.


Durante todo este período de convivência nunca demonstrou sinais de irritabilidade. Sempre pacífico e sereno, porém, compromissado com a verdade. Nem mesmo as nossas diferenças no universo do futebol foram elementos de divergências. Ele torcendo para o São Paulo e eu com o meu flazeiro (uma mistura de sentimentos flamengo e cruzeiro).


Padre Rubens por onde passou foi deixando marcas de uma autêntica amizade. Não escondia o carinho e a gratidão pela Arquidiocese de Mariana. Quando vinha à Mariana arrumava uma maneira de passar em Cachoeira do Campo para rever os amigos.


O dinamismo pastoral da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré nunca tirou a alegria e a vontade de trabalhar. Ele e o padre Vander Sebastião eram muito queridos por todos, formando assim uma verdadeira "dupla dinâmica". São inúmeras as situações bonitas, algumas tristes e até engraçadas que marcaram o estágio pastoral do padre Rubens na Paróquia Nossa Senhora de Nazaré.


Resta-nos agradecer a Deus pelo pouco tempo, mas intensamente experienciado junto a este nosso grande amigo e irmão. Consola-nos a certeza da Ressurreição. Que o prefácio dos Fiéis Defuntos seja a nossa inspiração e conforto neste momento de dor: "Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola..."


Aos familiares deste nosso grande amigo, nossa união em preces orantes.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ano Sacerdotal


"Fidelidade de Cristo, fidelidade do Sacerdote"
Celebração dos 70 anos de vida presbiteral de Monsenhor Licínio Fernandes

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

AS LIDERANÇAS PASTORAIS DEVEM SER OS PRIMEIROS DIZIMISTAS DA COMUNIDADE


Inúmeras pessoas pensam que se ajudam alguma pessoa ou instituição, estão dispensadas de devolver o dízimo. Estas contribuições não substituem o dízimo. Dízimo é o que colocamos no altar. É claro que, após separar o dízimo que deve ser usado nos trabalhos de evangelização em cada comunidade, devemos também ser solidários com os menos favorecidos ou inituições que trabalham na defesa da vida e da promoção humana.

Todas as lideranças comunitárias devem ser dizimistas. Não podemos falara sobre o que não praticamos. Evangelizamos muito mais pelo que somos do que pelo que falamos. Devemos evangelizar sempre e, se necessário, usar as palavras. Já dizia o Papa Paulo IV: " O mundo precisa mais de testemunhas do que de mestres; e se escuta os mestre é porque eles são testemunhas".

Muitos agentes de pastoral pensam não ser necessário devolver o dízimo, porque já prestam serviços na comunidade eclesial. Caso eu exerça atividade na Igreja, e por isto nego o dízimo, estou cobrando pelos meus serviõs prestados à Evangelização.

O primeiro dever de toda pessoa de fé é ser fiel e obediente a Deus, começando pelos frutos de seu suor. Em Malaquias comos advertidos: "Eu sou Javé e não mudo. Vocês, ao contrário, filhos de Jacó, vocês não se definem. Desde o tempo de seus antepassados, vocês se afastaram dos meus estatutos e não guardam os meus decretos. Voltem para mim, que eu também voltarei para vocês... tragam o dízimo completo para o cofre do Templo, para que haja alimento em meu Templo. Façam esta experiência comigo - diz Javé dos Exércitos. Vocês hão de ver, então, se não abro as comportas do céu, se não derramo sobre vocês as minhas bençãos de fartura".

Se por um lado, existem muitos agentes de pastoral que não se abriram para a maravilhosa experi~encia em ser dizimista, por outro, há aqueles que são dizimistas conscientes. Muitas pessoas, além de serem dizimistas, doam também um pouco do tempo disponível para servir à comunidade eclesial. Está é, portanto, a grande riqueza de nossa Igreja: pessoas que se doam e se colocam a serviço do Evangelho. Tais pessoas são verdadeiras testemunhas e exemplos proféticos para a sociedade atual, pois ensinam não só a partilhar os bens, mas também o tempo e os talentos em prol da evangelização. Mulheres e homens que buscam no trabalho o sustento de suas famílias. Além das ocupações diárias, são esposos, mães, pais que oferecem à comunidade o tempo disponibilizado para o merecido descanso. Encontramos também em muitas comunidades jovens que, além de serem dizimistas consciêntes, trabalham, estudam e atuam em diversas pastorais. São verdadeiros tesouros humanos presentes em nossas comunidades.

O que mais suscita admiração é que a maioria destas pessoas age no mais profundo silêncio, sem buscar proveito pessoal, fama e outros tipos de reconhecimentos. O testemunho destas lideranças pastorais é muito importante para o êxito em toda ação evangelizadora. Não podemos perdê-las, pois são pessoas que vivem de acordo com o que acreditam. São verdadeiras testemunhas para o hoje de nossa história.


Pe. José Afonso de Lemos

Artigo / Dízimo-mês de Agosto/2009.

O DÍZIMO É PASTORAL E NÃO CAMPANHA FINANCEIRA



O Dízimo deve ser visto como opção pastoral permanente, não como campanha financeira temporária. "O sistema do dízimo parece pastoralmente rico, portanto, enquanto sistema de contribuição: a) sistemática (mensal, por exemplo) : b) de compromisso moral com a comunidade (não jurídico); c) fixado de acordo com a consciência formada de cada um (sem índice aritmético)" (Estudo da CNBB, nº8, pág.51). Dízimo não é promoção para ganhar mais dinheiro para a Igreja. É um grande erro entender o dízimo como fórmula para solucionar problemas econômico-financeiros da paróquia ou diocese.

O Dízimo é uma expressão de fé daquele que participa da comunidade eclesial. É uma maenira de tornar a comunidade independente daquelas pessoas que não se encontram inseridas na vida comunitária. O Dízimo elimina os privilégios e estabelece a igualdade entre os membros que a edificam. O Dízimo é expressão de fé amadurecida; é uma contribuição livre e espontânea que emerge do amor comunitário em prol da evangelização.

O Dízimo cria entre os fiéis a consciência de Igreja e desperta em cada pessoa o compromisso com a vida comunitária. A Igreja é a nossa família, ou seja, a família dos filhos de Deus. Pelo batismo somos inseridos nessa família. Como qualquer outra família, a Igreja precisa da participação de todos os seus membros. Não é suficiente dizer que é Igreja só pelo fato de ter recebido os sacramentos e participar das missas, sem inserção comunitária. Nós somos Igreja na medida em que participamos e colaboramos com ela. O Dízimo é sinal visível de nossa participação na vida da Igreja.

Importante salientar que a primeira finalidade da pastoral do Dízimo é criar na comunidade cristã a "consciência de Igreja", tendo em vista a evangelização. Os frutos desta conscientização e da participação na vida eclesial são os recursos materiais que possibilitam a Igreja cumprir a sua missão. Várias pessoas ignoram totalmente esta primeira finalidade do dízimo, inclusive padres e lideranças leigas. Em muitas comunidades prevalece uma visão economista do dízimo. Para superar esta compreensão errônea sobre o dízimo necessita-se de uma contínua e profunda formação da consciência. "Isto coloca a restauração do sistema do dízimo, para ser realmente pastoral, na linha de uma constante formação da consciência. É só através disso que o cristão não verá a sua liberdade constrangida e descobrirá seu ato de contribuir dignificado dentre de uma dimensão religiosa" (Estudo da CNBB, nº8, Pág.53).

Aproveitando o contexto do Ano Sacredotal que traz como tema "Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote", é importante ressaltar que o padre, sobretudo aquele que exerce funções mais diretamente ligadas ao contexto paroquial, poderá contribuir muito significativamente para este trabalho de formação de consciência. Porém, todo este trabalho de consciêntização não pode ficar somente sob a responsabilidade do padre. Tudo deve ser realizado em sintonia com as lideranças que atuam na pastoral do dízimo, pois já nos diz a canção "sozinho e isolado ningué é capaz".


Pe. José Afonso de Lemos
Artigo / Dízimo-mês de Julho/2009.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

PASTORAL DO DÍZIMO – UMA PASTORAL ESSENCIALMENTE MISSIONÁRIA


O Documento de Aparecida (DA) ressalta a necessidade de uma Igreja em estado de permanente missão, ou seja, que a missionariedade impregne a Igreja inteira. O documento convida-nos a passar da pastoral de conservação a uma pastoral missionária.
A pastoral do dízimo deve ser edificada dentro deste espírito missionário. Entender a pastoral do dízimo a partir desta perspectiva missionária é mostrar que a participação não é meramente financeira, mas implica também na doação pessoal de talentos e do próprio tempo à comunidade. A equipe da pastoral do dízimo tem a função de conscientizar cada participante da comunidade sobre sua responsabilidade em contribuir em todos os sentidos para com essa mesma comunidade e toda a Igreja. Exige que a equipe visite as casas para divulgar o dízimo e para orientar as famílias a participarem da comunidade. Através deste trabalho missionário a equipe atrai as famílias para a comunidade. Os agentes da pastoral do dízimo não podem ser simples entregadores de envelopes nas casas. Devem estabelecer um relacionamento fraterno e libertador com as pessoas. A imagem do Cristo, Bom Pastor, que ia ao encontro de todos, deve iluminar toda a ação evangelizadora dos agentes da pastoral do dízimo.
A pastoral do dízimo, enquanto prioridade missionária, deve contribuir para que o dizimista estabeleça um relacionamento de gratidão a Deus, de partilha com os irmãos e de co-responsabilidade na comunidade. O dízimo deve ser entendido como um meio de participar da grande missão da Igreja, a evangelização.
Afirmar a missionariedade da pastoral do dízimo é evidenciar que o dízimo não é uma questão de dinheiro. Ao contrário, é uma questão de fé e de compromisso comunitário. A pastoral deve realizar sua missão, não como meio de angariar dinheiro, mas como evangelização. Dízimo não é taxa, nem imposto, nem esmola. É devolução, é gratidão, é ato de amor a Deus, à Igreja e aos irmãos e irmãs. Pelo dízimo, os fiéis ajudam a Igreja a cumprir a sua missão de evangelizar. Por isso, quem contribui com o dízimo é também um evangelizador. Mesmo que não possa sair de sua casa e de sua comunidade para ir pelo bairro e pelo mundo a anunciar o evangelho, o dizimista, ao devolver o dízimo, de maneira livre, consciente e de coração agradecido, torna-se também um evangelizador. Quando o dizimista devolve o dízimo na comunidade para que ela possa desenvolver um trabalho pastoral eficiente, ele está contribuindo com a missão. A participação do dizimista possibilita capacitar e enviar missionários. O dizimista torna-se missionário através do testemunho de partilha. São Paulo diz: “Quem colabora com o pregador tem merecimentos de pregador”.
Investir na pastoral do dízimo como prioridade missionária é levar a comunidade a ser sinal de salvação. Todos nós que somos batizados, somos missionários, diz o Concílio Vaticano II, e devemos semear a semente da Palavra. Isto implica o dever de cada um de nós em evangelizar conforme os dons que recebemos. Com o dízimo assim entendido e vivenciado, podemos construir uma Igreja mais fraterna, missionária e solidária com a vida dos pobres e excluídos.